Petróleo, energia e o dólar em risco

Uma mudança silenciosa no comércio global de petróleo começa a desafiar o sistema baseado no dólar, em vigor há décadas, que ajudou a consolidar o domínio económico dos EUA. À medida que os Estados do Golfo reavaliam as suas alianças e exploram alternativas, o equilíbrio do poder financeiro pode estar a inclinar-se lentamente — afastando-se do dólar e rumo a um mundo mais multipolar.

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petrodollar countries in middle east

O dia 15 de março de 2026 marcou um dia histórico, quando o petróleo a bordo do petroleiro Karachi, de propriedade paquistanesa, passou em segurança pelo Estreito de Ormuz — denominado não em dólares americanos, mas em yuanes chineses. Nesse mesmo dia, outra embarcação também passou transportando crude numa rota alinhada com o yuan.

Isto desafia um acordo que há muito sustenta os alicerces da economia americana: o sistema do petrodólar. Em troca da proteção americana, a Arábia Saudita, o Kuwait, o Bahrein, o Catar, os Emirados Árabes Unidos e Omã concordaram em apoiar os interesses dos EUA e vender o seu petróleo em dólares. Mas um acordo que deveria garantir o domínio americano acabou por conferir a um pequeno grupo de países uma influência extraordinária sobre a nação mais poderosa da Terra.

Tensões crescentes no Golfo

Desde que os EUA e Israel alegadamente eliminaram o líder supremo do Irão, uma onda de ataques espalhou-se pela região. Os Estados do Golfo não concordaram com isto. Durante 50 anos, o seu acordo com os EUA manteve-se. Mas agora, pela primeira vez, os próprios países que sustentam a economia americana estão a ver os termos desse acordo começarem a desmoronar-se.

Então, o que acontece se decidirem deixar de alinhar? Pode não levar a um colapso imediato, mas sim a um sangramento lento — um que poderia eventualmente pôr fim à era de domínio global dos Estados Unidos.

Como os Estados do Golfo Construíram o Seu Poder

Para compreender como um punhado de Estados do deserto ganhou tanta influência, é preciso olhar para o que construíram — e com que rapidez tudo isso pode desmoronar-se. Ao longo do último século, os Estados do Golfo passaram por uma transformação massiva, impulsionada em grande parte pelo petróleo. Descoberto pela primeira vez no Bahrein em 1932, a produção de petróleo espalhou-se rapidamente por toda a região. Na década de 1990, a riqueza do petróleo tinha remodelado completamente estas nações. Antigas comunidades nómadas do deserto transformaram-se em cidades modernas em expansão. O Dubai, por exemplo, evoluiu de um modesto porto comercial para uma metrópole global em apenas uma geração.

Não se tratou apenas de um boom económico — remodelou a governação. A riqueza do petróleo permaneceu sob controlo estatal, o que significa que os salários, os subsídios e as infraestruturas eram todos financiados centralmente. Em troca de obediência política, os governos distribuíram riqueza suficiente para manter a estabilidade. Tornou-se um contrato social — mas não um contrato democrático.

No entanto, este sistema só funciona se duas condições forem cumpridas: o dinheiro continua a fluir e a região permanece estável. É por isso que, nas últimas décadas, os Estados do Golfo investiram fortemente na diversificação. A Arábia Saudita investiu centenas de milhares de milhões no turismo e no entretenimento. Os Emirados Árabes Unidos posicionaram-se como um centro global de finanças e inovação, e o Catar acolheu o Campeonato do Mundo de Futebol. Estas nações já não se contentam em ser apenas exportadoras de petróleo — querem influência global.

Hoje, o turismo representa cerca de 12% do PIB tanto na Arábia Saudita como nos Emirados Árabes Unidos. O aeroporto internacional do Dubai é o mais movimentado do mundo em termos de passageiros internacionais, e os fundos soberanos da região gerem biliões de dólares em ativos globais — especialmente nos Estados Unidos.

Mas tudo isto depende de um fator-chave: a perceção de estabilidade. Os investidores têm de acreditar que a região é segura e previsível. E, em questão de semanas, décadas dessa perceção começaram a desmoronar-se.

Escalada e Consequências Económicas

Na sequência da escalada militar envolvendo o Irão, a retaliação espalhou-se rapidamente. Ataques com mísseis atingiram tanto áreas civis como alvos militares em todo o Golfo. As principais instalações de petróleo e gás foram encerradas, reduzindo a produção em milhões de barris por dia — custando à região cerca de mil milhões de dólares diariamente.

Estes países não são democracias. Não há eleições para absorver a ira pública. A sua estabilidade depende da manutenção tanto do fluxo económico como da segurança pública. Se qualquer um falhar, o próprio regime fica em risco.

No entanto, estas nações estão longe de ser impotentes. Ao longo de décadas, tornaram-se um pilar fundamental da economia global. Juntas, controlam uma parte significativa da produção global de petróleo e uma parcela ainda maior das reservas comprovadas. Isto dá-lhes uma enorme influência sobre os preços da energia.

Se decidissem reduzir significativamente a produção, poderiam fazer os preços globais da energia dispararem — colocando pressão económica e política sobre os Estados Unidos. Um cenário semelhante ocorreu durante a crise do petróleo de 1973, quando as nações produtoras de petróleo restringiram a oferta, provocando inflação e turbulência económica no Ocidente.

No entanto, o mundo mudou desde então. Os Estados Unidos são agora muito menos dependentes do petróleo do Golfo e tornaram-se um dos maiores produtores mundiais. À primeira vista, isto sugere que a influência do Golfo diminuiu — mas, na realidade, o seu poder evoluiu.

O poder do dólar americano

A verdadeira força dos Estados Unidos reside não apenas nas suas forças armadas, mas na sua moeda. O dólar funciona como a principal moeda de reserva mundial, constituindo uma grande parte das reservas cambiais globais. Os países detêm dólares para estabilizar as suas próprias economias e facilitar o comércio internacional.

Por que razão o petróleo continua a ser importante

No centro deste sistema está o petróleo. Como o petróleo é cotado em dólares, os países têm de deter dólares para o comprar. Isto cria uma procura global constante pela moeda norte-americana. Por sua vez, os Estados Unidos podem registar défices comerciais persistentes — importando mais do que exportam — enquanto financiam essa diferença através da emissão de dívida que o resto do mundo está disposto a comprar.

Os riscos subjacentes ao sistema

Este sistema permitiu aos americanos desfrutar de padrões de vida mais elevados, ao mesmo tempo que financiava gastos governamentais massivos. Mas também cria vulnerabilidade. Se a procura global por dólares diminuir — especialmente devido a mudanças no comércio de petróleo — o sistema poderá enfraquecer.

Essa possibilidade já não é puramente teórica. Alguns Estados do Golfo estão a explorar alternativas, incluindo a negociação de petróleo noutras moedas, como o yuan chinês. A China tornou-se um importante parceiro comercial na região e oferece cooperação económica sem condições políticas.

Ainda assim, uma mudança total para longe do dólar seria difícil. Os mercados globais estão profundamente enraizados em sistemas baseados no dólar, e mudar de moeda acarreta custos e riscos. Nenhum país quer dar o primeiro passo sem uma alternativa estável em vigor.

Uma mudança lenta, não um colapso repentino

Entretanto, os Estados do Golfo estão a diversificar discretamente. Os fundos soberanos estão a investir mais na Ásia e os laços económicos com a China estão a fortalecer-se. Estas medidas não sinalizam uma ruptura imediata — mas representam uma mudança gradual.

No final, sistemas como o petrodólar raramente entram em colapso da noite para o dia. Em vez disso, deterioram-se lentamente à medida que os países se protegem. O que estamos a testemunhar não é um colapso repentino, mas um reequilíbrio constante do poder global.