Quando Donald Trump chegou ao poder, prometeu ser duro com a China. Lançou guerras comerciais, impôs tarifas e desafiou abertamente Pequim de uma forma que os presidentes anteriores tinham evitado. À primeira vista, parecia um ataque direto à ascensão da China. Mas, anos depois, o resultado não é assim tão simples. Trump não destruiu a China. Em muitos aspetos, forçou-a a adaptar-se — e isso pode tê-la tornado mais forte.
Ao mesmo tempo, a China está longe de ser imbatível. Por trás das manchetes e das declarações ousadas, ela enfrenta graves problemas internos. Portanto, a verdadeira história não é sobre um lado vencer. É sobre como ambos os países estão a mudar sob pressão — e como o resto do mundo está a reagir.
Os Estados Unidos começaram a parecer instáveis
Um dos maiores efeitos da abordagem de Trump não foi económico — foi psicológico. Os Estados Unidos começaram a parecer imprevisíveis.
Trump mudava frequentemente de tom rapidamente. Podia elogiar um líder numa semana e atacá-lo na seguinte. Fazia ameaças fortes, mas nem sempre as concretizava. Com o tempo, outros países perceberam esse padrão. Começaram a questionar se os EUA ainda eram um parceiro de confiança.
Isso é mais importante do que parece. A liderança global não se resume apenas ao poder militar ou ao dinheiro. Tem a ver com confiança. Se os países não confiam em si, começam a procurar alternativas.
Foi aqui que Xi Jinping viu uma oportunidade. A China começou a apresentar-se como calma, estável e focada na cooperação a longo prazo. Quer essa imagem seja ou não totalmente verdadeira, tem sido eficaz. Em comparação com o caos, até um sistema controlado pode parecer atraente.
A pressão obrigou a China a tornar-se mais inteligente
A guerra comercial de Trump atingiu duramente a China no início. As exportações para os EUA caíram e as empresas sentiram a pressão. Mas, em vez de entrar em colapso, a China adaptou-se.
Começou a vender mais para outras regiões, como o Sudeste Asiático, a Europa e a Índia. Investiu mais na sua própria tecnologia e cadeias de abastecimento. Incentivou as empresas a dependerem menos dos mercados e componentes americanos.
Em termos simples, a China aprendeu a lição: depender demasiado dos EUA é perigoso.
Essa lição pode ser um dos maiores presentes involuntários de Trump à China. A pressão não destruiu a China — tornou-a mais cautelosa, mais independente e mais preparada para conflitos futuros.
A China tem ferramentas poderosas próprias
A China não está apenas a reagir — também tem poder de influência.
Um exemplo importante são os materiais de terras raras. Estes são essenciais para a tecnologia moderna, desde smartphones a veículos elétricos e armas avançadas. A China domina esta cadeia de abastecimento, especialmente o processo de refinação.
Isto dá a Pequim uma arma silenciosa, mas poderosa. Não precisa de lutar diretamente. Pode exercer pressão restringindo materiais essenciais dos quais as indústrias dependem.
Ao mesmo tempo, a China construiu uma enorme base industrial. Consegue produzir bens em grande escala e, muitas vezes, a um custo mais baixo. Isso torna difícil para outros países competir, mesmo quando querem reduzir a dependência da China.
Mas os problemas da China são reais — e graves
Apesar destes pontos fortes, a China enfrenta problemas económicos profundos que não podem ser ignorados.
O seu crescimento está a abrandar. Durante décadas, a China baseou-se na construção — mais fábricas, mais habitações, mais infraestruturas. Mas isto levou a um excesso de construção. Agora há apartamentos vazios, projetos subutilizados e uma dívida enorme.
Os governos locais contraíram empréstimos avultados. Os promotores imobiliários expandiram-se demasiado depressa. O resultado é uma economia com excesso de oferta e falta de procura.
Isto gera deflação, em que os preços caem em vez de subirem. Pode parecer bom, mas na verdade é perigoso. Pode abrandar o consumo, reduzir os salários e enfraquecer as empresas.
Além disso, muitos trabalhadores estão a passar por dificuldades. Alguns estão a perder empregos ou a passar para trabalhos temporários e precários. Isto cria uma pressão social dentro da China que o crescimento económico por si só não consegue resolver facilmente.
O Mundo Também Está a Reagir
A estratégia da China de exportar mais bens não é isenta de consequências.
Quando a China vende grandes quantidades de produtos baratos no estrangeiro, isso pode prejudicar as indústrias locais de outros países. Isto já está a causar tensão na Europa, no Sudeste Asiático e além.
Assim, enquanto a China tenta reduzir a dependência dos EUA, está a criar novos problemas com outros parceiros. Estes países podem fazer comércio com a China, mas também não confiam plenamente nela.
Por outras palavras, a China está a ganhar alcance — mas não necessariamente uma lealdade profunda.
A China continua a evitar a responsabilidade global
Outra fraqueza fundamental é o papel limitado da China na segurança global.
Ao contrário dos EUA, a China não costuma envolver-se em conflitos militares longe do seu território. Prefere proteger os seus interesses económicos sem correr grandes riscos.
Por exemplo, países como o Irão ou a Venezuela podem depender economicamente da China, mas esta não intervém com firmeza para os defender. Isto envia uma mensagem clara: a China é um parceiro, mas não um protetor.
Isto limita a capacidade da China de substituir os EUA como a principal superpotência mundial. Ser o número um não se resume apenas ao comércio — tem também a ver com segurança e responsabilidade.
Uma grande vulnerabilidade: a energia
A China também depende fortemente da energia importada. Uma grande parte do seu petróleo passa pelo Estreito de Ormuz, uma das rotas mais importantes e frágeis do mundo.
Se um conflito interromper essa rota, a China enfrenta um problema grave. Não consegue substituir facilmente esse abastecimento a curto prazo.
Isto revela uma verdade maior: a China é poderosa, mas continua vulnerável de formas que os EUA não são.
Dois líderes, dois estilos muito diferentes
A rivalidade entre os EUA e a China também é moldada pela liderança.
O estilo de Trump é direto, ruidoso e imprevisível. Ele concentra-se em vitórias rápidas e movimentos ousados.
O estilo de Xi é controlado, paciente e de longo prazo. Ele está disposto a esperar, ajustar-se e construir lentamente uma vantagem ao longo do tempo.
Numa luta curta, a abordagem de Trump pode ser poderosa. Mas numa competição longa, a paciência vence frequentemente. A China está a jogar um jogo de longo prazo e sente-se confortável a fazê-lo.
O resultado real: um mundo dividido
Então, qual é o resultado final das ações de Trump?
Ele não se limitou a tornar a China mais forte ou mais fraca. Ele alterou o ambiente.
- Ele enfraqueceu a confiança nos EUA.
- Ele forçou a China a adaptar-se e a tornar-se mais independente.
- Ele expôs as fraquezas internas da China.
- Ele aumentou a tensão e a incerteza globais.
Mas o maior impacto recai sobre o resto do mundo.
A maioria dos países não quer escolher entre os EUA e a China. Querem comércio com a China e laços de segurança com os EUA. Querem flexibilidade.
É por isso que a «cobertura» se tornou a estratégia-chave. Os países estão a tentar equilibrar ambos os lados, evitando um compromisso total com qualquer um deles.

