A OTAN à beira do abismo: a divisão transatlântica agrava-se devido à guerra no Irão

As tensões entre os EUA e os seus aliados europeus empurraram a OTAN para uma das suas crises mais graves das últimas décadas, expondo profundas divisões em matéria de estratégia, obrigações legais e os riscos de uma escalada na guerra no Irão.

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NATO flag fractured

Nos últimos dias, a NATO mergulhou numa nova crise depois de a administração Trump ter criticado duramente os membros europeus da aliança por, aparentemente, não estarem a fazer o suficiente para ajudar os EUA a levar a cabo a sua guerra no Irão.

A retórica dos altos funcionários norte-americanos tem sido impressionante. Trump disse à Reuters que sentia «repulsa» pela NATO, descreveu-a como um «tigre de papel» ao Telegraph e chegou mesmo a ameaçar retirar os EUA da aliança por completo. Entretanto, o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, sugeriu que Washington poderá ter de reconsiderar o valor da sua adesão:

“Vamos ter de reexaminar se esta aliança, que serviu bem este país durante algum tempo, continua a servir esse propósito — ou se se tornou uma via de sentido único, em que a América está simplesmente numa posição de defender a Europa. Quando precisamos da ajuda dos nossos aliados, eles negam-nos direitos de base e de sobrevoo.”

Depois, na quarta-feira, durante um almoço de Páscoa, poucas horas antes de um discurso nacional muito aguardado, Donald Trump foi ainda mais longe, alegando que os aliados dos EUA na OTAN não apoiariam os EUA no caso de uma guerra com a China:

“Aprendi sobre a OTAN. A OTAN não estará lá se alguma vez tivermos o grande conflito — sabem o que quero dizer. Espero que não tenhamos. A minha relação é muito boa com o grande — melhor do que com a OTAN.”

A Europa traça a linha

Em termos gerais, a administração parece ter duas queixas principais contra a OTAN neste momento.

A primeira diz respeito às decisões de vários países europeus de limitar a utilização de bases e do espaço aéreo pelos Estados Unidos. A Espanha, por exemplo, terá fechado o seu espaço aéreo a aviões norte-americanos envolvidos na guerra com o Irão. A Itália negou direitos de aterragem a vários bombardeiros norte-americanos na base de Sigonella, no leste da Sicília, enquanto a França impediu Israel de utilizar o seu espaço aéreo para transportar armas americanas destinadas ao conflito.

Estes governos argumentam que tais restrições são necessárias para permanecerem em conformidade com o direito internacional. Washington, no entanto, vê-as como uma falta de solidariedade para com um aliado.

O ponto nevrálgico do Estreito de Ormuz

A segunda questão é a relutância da Europa em ajudar a reabrir o Estreito de Ormuz. Esta estreita via navegável entre o Irão e Omã liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Áden e, por extensão, aos mercados globais. Em tempos normais, cerca de 20% do petróleo e gás mundiais passam por ela.

Desde o início da guerra, no entanto, o tráfego entrou em colapso. O Irão lançou ataques com mísseis e drones contra navios em trânsito e declarou que a passagem agora requer autorização iraniana.

Autoridades norte-americanas apresentaram três argumentos principais para instar os membros europeus da OTAN a envolverem-se.

O Argumento de Washington — e a Resposta da Europa

Em primeiro lugar, argumentam que os aliados europeus são obrigados a apoiar os EUA. Mas esta alegação é fraca. O Artigo 5.º da OTAN aplica-se apenas quando um membro é atacado — não quando inicia uma ação militar.

Em segundo lugar, argumentam que a Europa está «em dívida» para com os EUA pelo apoio prestado na Ucrânia. Trata-se de um argumento difícil de sustentar, dado que a administração Trump retirou a maior parte da ajuda militar a Kiev e passou grande parte do último ano a seguir uma abordagem mais conciliatória em relação a Moscovo. De forma mais ampla, o apoio dos EUA à Ucrânia foi sempre motivado principalmente por interesses estratégicos americanos, e não por qualquer sentido de obrigação para com a Europa.

Em terceiro lugar, Washington argumenta que a reabertura do Estreito é do próprio interesse económico da Europa. Embora a Europa dependa dos fluxos de energia que atravessam a região, a realidade é mais complicada. A maior parte do petróleo que passa pelo Estreito destina-se à Ásia, e qualquer interrupção resulta principalmente em preços globais mais elevados — afetando tanto os EUA como a Europa.

O estatuto dos EUA como grande produtor de petróleo também não altera fundamentalmente esta dinâmica.

Preços mais elevados podem beneficiar as empresas energéticas dos EUA, mas são um fator negativo para a economia em geral e para os consumidores.

Por que razão a Europa se mantém à margem

Talvez o mais importante seja que os governos europeus duvidam que um envolvimento mais profundo no conflito venha realmente a reabrir o Estreito. Fazer isso exigiria provavelmente a capitulação do Irão ou um acordo negociado — nenhuma das quais parece iminente. Pelo contrário, a escalada poderia tornar a diplomacia mais difícil, aumentando simultaneamente o risco de uma guerra mais alargada.

Isto ajuda a explicar a relutância mais generalizada da Europa em envolver-se. Mesmo os governos fortemente pró-americanos mostram-se cautelosos em entrar num conflito sem objetivos claros ou uma estratégia de saída.

Será este o fim da NATO?

Formalmente, não. Ao abrigo da recente legislação dos EUA, o presidente não pode retirar-se unilateralmente da NATO sem um voto de dois terços do Senado ou a aprovação separada do Congresso.

Na prática, porém, a aliança parece cada vez mais frágil. Os EUA acreditam claramente que os seus aliados europeus não estão a fazer a sua parte, enquanto muitos na Europa duvidam que Washington responda adequadamente a uma crise ao abrigo do Artigo 5.º.

Mesmo sem uma retirada formal, os EUA poderiam reduzir o seu compromisso — diminuindo o destacamento de tropas e afastando-se das estruturas da OTAN. Tal medida não chegaria a constituir uma saída da aliança, mas poderia torná-la efetivamente vazia.

Uma Aliança apenas no nome?

A OTAN pode não estar morta. Mas, no seu estado atual, começa a parecer menos uma aliança militar coesa e mais um arranjo político frágil — um que persiste no papel, mesmo quando a sua unidade subjacente está sob pressão crescente.